terça-feira, 30 de março de 2010

Jornada dos errantes


A sombra moveu-se numa passarela de madeira
Afunilada e cinzenta de inverno,
-- Não um inverno-verão como os nossos,
Mas, semelhante às cidadelas do sul.

A doce rapariga esfregou os olhos,
Espreitou pela janela, pupílas da manhã anciosa.
Empregou a palma da mão em movimentos
Circulares e se desfez do orvalho na vidraça.

O leve assovio do vento parecia designar
Destino à sombra, que como balanço
Ia e vinha sem abandonar o lugar.
Os homens são bons nessas coisas de não sair do lugar;
Lembrou a garota.

Retirou o chapéu, a capa, e seus dentes brilharam
Enfim, elevou confiante predador.
Acenou na direção da esfumaçada janela.
A rapariga torceu o nariz e com pés de fada rumou à porta,
Deslizou gravemente pelas escadas,
Já no térreo, tremeu amargamente, esquecera seu agasalho.

Alfinetes descosturaram sua consciência,
E a brisa a fez ruborizada, tentou voltar...
Tarde demais o braço envolvido em sombra
Agarrou seu corpo, e seus dedos entrelaçaram,
Latejantes em ambas as palmas dois corações brotaram.
Deixaram um rastro de folhas negras, na jornada dos errantes.

Gradativamente a extensão dos mares,
Cores e nuvens foram envoltas e cercadas,
Tudo se esfacelou, tão logo existira nada.


Ferdinando Rodrigues